O Socialista

15.6.05

Cunhal

Não sou comunista. Não é que me repugne a ideia, mas não o sou. Não foi essa a via que escolhi, por me parecer que não é a mais atraente, que está desactualizada e que não serviu as populações dos países onde triunfou. No entanto, estou longe dos disparates simplistas em voga que comparam qualquer modelo comunista com o nazismo ou com o fascismo. O comunismo foi mais flexível, conseguindo integrar partidos no sistema democrático (no Ocidente) ou transformá-los para que tal fosse possível (no Leste, após a queda do Muro de Berlim). Nesta doutrina realizaram-se políticos responsáveis por crimes atrozes, como Mao ou Estaline, e políticos que se revelaram lutadores brilhantes e incansáveis, como Álvaro Cunhal, no combate a ditaduras vigentes nos seus países.
E é aqui que quero chegar: a Álvaro Cunhal. Muita imbecilidade a direita escreverá nos próximos dias, principalmente a (extrema) direita mais “jovem”. Mas isso não interessa. Amanhã ninguém se lembrará daquilo que os que estão no desemprego político escrevem hoje. Para eles, Freitas não presta, porque exerce o seu direito de ser um homem politicamente ecléctico; Soares não presta, porque fez a descolonização possível; Gonçalves não presta pelas nacionalizações; Sampaio não presta pela dissolução; Sócrates não presta porque os derrotou; e Cavaco pode até não prestar pela falta de sofisticação. Em resumo, o Portugal democrático não serve à jovem (extrema) direita. Começo a desconfiar que só um nome ecoa no cérebro dos jovens turcos da (extrema) direita: Salazar! Salazar! Salazar!
No entanto, detenhamo-nos no importante: a figura de Cunhal. As inúmeras imagens e entrevistas repostas, nestes dias, demonstram bem a imagem do génio político e do lutador incansável pelo fim do salazarismo. Transparece a imagem do patriota que, por sempre querer o melhor para o seu país, defendeu, da forma mais coerente de que há memória, o que considerava correcto, concordemos ou não com as suas posições. Para atestar a superioridade de Cunhal, basta lembrar que muitos dos que mais o atacam são as chamadas “vítimas da Revolução”, os que, quando viram os seus interesses em risco, fugiram para Espanha e para o Brasil: Álvaro Cunhal, perante um regime adverso, permaneceu nos país, lutou e foi preso. Onzes anos, oitos dos quais em isolamento: calculo que seja bem pior do que umas semanas num apartamento no Rio de Janeiro ou em Madrid... A tudo isto, ainda devemos somar a atitude de Cunhal perante a extrema esquerda, a 25 de Novembro de 1975: impediu, juntamente com Costa Gomes, uma deriva esquerdista que poderia, essa sim, ter tido graves consequências para o país. A memória é curta e a figura de Cunhal profundamente controversa. Mas, num país em que os ideais e os princípios estão cada vez mais ausentes, em que o desinteresse pela política é cada vez menor e que grande parte dos cidadãos de dezoito anos nem se dão ao trabalho de se recensear, o exemplo de Cunhal e a sua atitude perante a adversidade, enquanto clandestino, enquanto preso ou enquanto exilado não pode ser esquecida.
Álvaro Cunhal era um grande português. E o desaparecimento de um grande português é sempre mau para Portugal.

22.4.05

Mário Soares

Marques Mendes e Carmona Rodrigues

Marques Mendes esteve bem no anúncio da candidatura de Carmona Rodrigues à presidência da Câmara de Lisboa. No entanto, há que admitir que não lhe restava outra opção. Não resolvendo já o problema, teria pela frente semanas de marcação mediática por parte de Santana Lopes, que já prometeu que vai “andar por aí”. Entretanto, os vereadores de Santana já iniciaram os protestos habituais, mostrando que o antigo líder deixou marca no partido: a da vitimização.

20.4.05

General Humberto Delgado

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19.4.05

Bento XVI

No Conclave que hoje terminou, pareceu-me que os cardeais não souberam ler os sinais dos tempos. Optaram por alguém que se aproximava de João Paulo II no que de menos bom teve o seu Pontificado: conservadorismo e rigidez doutrinal. O sucesso do anterior Papa residiu na sua flexibilidade ecuménica, nas suas posições políticas num mundo de Guerra Fria e na sua juventude (à altura da eleição).
A eleição de um homem doutrinariamente ainda mais inflexível, de um país onde não há uma maioria católica ou um número de fieis a conquistar e com uma idade tão avançada pareceu ser uma solução de não comprometimento: não se descarta a herança ideológica do anterior Papa, mas opta-se por alguém de mais idade, muito provavelmente num pontificado de transição.
Muitos ainda darão o exemplo de João XXIII, também um cardeal mais velho, ao tempo da sua eleição, mas os percursos de Ratzinger e de Roncalli são incomparáveis: o primeiro afastará, ainda mais, a Igreja do espírito conciliar que o segundo procurou imprimir.
Como católico, hoje, não tive uma alegria.

CNN

18.4.05

Conclave

Considero a eleição do Papa um acontecimento político internacional de extrema importância. Independentemente de ser católico e de, enquanto tal, a eleição do chefe máximo da minha Igreja revestir particular relevo, o que interessa marcar, num blog político, é a eleição do Chefe de um Estado que, pelo número de crentes católicos em todo o mundo, exerce uma grande influência. Sendo assim, divulgo um gráfico que me parece especialmente interessante: o da calendarização das votações do Conclave. Está bem feito e é de fácil compreensão.
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Fonte: El Mundo

15.4.05

Fim de linha

Cada ensaio que Santana Lopes faz, tentando permanecer “à tona” na vida política portuguesa, reforçam a opção que os portugueses fizeram a 20 de Fevereiro. Começa a ser confrangedor vê-lo tentar manter a actividade pública. O país não o quis para primeiro-ministro, o PSD não o queria para a liderança, Marques Mendes e os lisboetas não o querem na presidência da Câmara da capital. Santana deveria consciencializar-se de que a sua pseudo-áurea de vencedor de eleições se esfumou. Essa era a única característica que o mantinha vivo politicamente. Sem ela, como político sem qualquer consistência ideológica ou obra feita, Lopes desaparece.

Francisco da Costa Gomes

12.4.05

Álvaro Cunhal

Fernando Salgueiro Maia

Abril

A menos de duas semanas do 31º aniversário da Revolução, iniciarei um ciclo fotográfico de homenagem aos que permitiram acabar com quarenta e oito anos de uma ditadura retrograda e irresponsável. Algumas escolhas poderão parecer polémicas, no entanto, pretendem lembrar não apenas os que combateram pela liberdade, de armas na mão, no próprio dia 25 de Abril de 1974, mas também os que, durante os longos anos da ditadura, foram presos, torturados, exilados ou mesmo assassinados.
Viva o 25 de Abril! Viva Portugal!